Espanha esconde um património arqueológico subaquático extraordinário: desde o Don Pedro em Ibiza até aos sítios da Comunidade Valenciana.
Sob a superfície do mar que rodeia a Península Ibérica jaz um dos patrimónios históricos mais ricos e menos conhecidos da Europa. Séculos de comércio mediterrânico, guerras navais, tempestades atlânticas e naufrágios acidentais foram depositando no fundo do mar uma quantidade extraordinária de vestígios. Espanha conta com mais de oitocentos sítios arqueológicos subaquáticos catalogados, embora se estime que o número real possa ser muito superior.
A Comunitat Valenciana concentra mais de cem sítios subaquáticos documentados, o que a torna uma das regiões com maior densidade de património arqueológico debaixo de água de todo o Mediterrâneo ocidental. Esta costa era uma das rotas comerciais mais movimentadas da Antiguidade, com tráfego constante de naves que transportavam vinho, azeite, cerâmica e metais.
O projecto CARTASub, impulsionado pelo Centro de Arqueologia Subaquática de Cartagena, tem como objectivo criar uma carta arqueológica submarina sistemática das águas espanholas. Mediante técnicas de prospecção acústica, fotogrametria subaquática e escavações científicas controladas, o projecto vai documentando e catalogando sítios com uma metodologia rigorosa.
O Museu Nacional de Arqueologia Subaquática, conhecido como ARQUA, é a instituição de referência em Espanha para a conservação, investigação e divulgação do património arqueológico subaquático. Situado em Cartagena, as suas colecções incluem peças recuperadas de sítios de toda a costa espanhola, desde restos fenícios e cartagineses até objectos de época moderna.
O Don Pedro de Ibiza é possivelmente o naufrágio mais conhecido do Mediterrâneo espanhol. Este ferry naufragou em julho de 1995 após uma explosão a bordo. O seu casco de cento e cinquenta metros de comprimento repousa em fundos entre vinte e quarenta metros em frente a Formentera, com uma visibilidade que pode superar os trinta metros.
O Cantábrico e as costas galegas guardam uma tipologia de naufrágios completamente diferente. As correntes atlânticas e as tempestades provocaram centenas de naufrágios ao longo dos séculos XIX e XX. As rias galegas escondem embarcações em excelente estado de conservação graças à baixa temperatura da água. Em Cádis, navios da época colonial encontram-se dispersos pelos fundos da baía. Tarragona contribui com sítios de época romana com ânforas intactas.
A legislação espanhola proíbe expressamente a extracção de qualquer objecto de um sítio arqueológico sem autorização administrativa. A infracção pode constituir um crime penal. Esta protecção não impede o mergulhador de visitar e fotografar os sítios: simplesmente estabelece que o que está no fundo do mar pertence a todos os cidadãos.
O SS Thistlegorm, embora não pertença às águas espanholas mas ao Mar Vermelho, inspirou gerações de mergulhadores espanhóis a interessarem-se pelos naufrágios históricos. Espanha não tem nada a invejar: os seus fundos albergam histórias igualmente apaixonantes, à espera de mergulhadores que saibam olhar com respeito, curiosidade e consciência.

