Tremer dentro do fato húmido parece desconfortável mas gerível. Na realidade é o último sinal antes de o corpo entrar numa espiral perigosa. A hipotermia ligeira afecta o discernimento antes da temperatura central descer — e debaixo de água isso significa decisões erradas no pior momento. Saber ler o frio é mais importante do que saber aguentá-lo.
Mergulho na Galiza, mês de maio, água a 14 °C, fato semiseco de 7 mm. Já levávamos 35 minutos a 22 m a explorar um naufrágio quando reparei que o meu parceiro Pablo já não respondia aos sinais. Não era narcose — estava gelado. Há dois minutos que tinha parado de tremer, e isso preocupou-me muito mais do que se continuasse a fazê-lo.
O corpo humano entra em hipotermia ligeira abaixo dos 35 °C de temperatura central. Debaixo de água isso acontece mais depressa do que a maioria das pessoas pensa, porque a água dissipa calor 25 vezes mais rápido do que o ar. Um fato húmido a 14 °C à superfície dá-te uns bons 60 a 90 minutos. A 22 m com corrente, essa janela reduz-se a metade.
Funciona por fases. Primeiro custa mais manter a flutuabilidade porque os músculos estão tensos. Depois começam os tremores — suaves, quase imperceptíveis. A fase de tremores controlados é boa: o corpo ainda está a lutar. O problema chega quando os tremores se tornam incontroláveis e depois desaparecem. Essa última parte — parar de tremer — não significa que estás melhor. Significa que o corpo está a render-se.
Os sinais por ordem, para teres na cabeça: dificuldade em concentrar-se, lentidão a responder a sinais, mãos descoordenadas (problemas para soltar o colete), lábios roxos visíveis através da água, olhar fixo. Se vires dois destes no teu parceiro, terminas o mergulho. Não é que ele tenha frio — ele está em hipotermia.
Há um detalhe importante com o neopreno. Um fato de 7 mm novo isola muito melhor do que um de 7 mm com 200 mergulhos. A compressão do neopreno ao longo dos anos reduz o seu poder isolante. Muita gente compra um fato, usa-o cinco anos, e um dia fica com frio à mesma profundidade de sempre sem perceber porquê. O fato já não é 7 mm efectivos — é 4 a 5 mm de isolamento real.
A diferença entre fato húmido e fato seco abaixo dos 12 °C é enorme. O fato seco, com roupa interior de lã ou thinsulate, permite mergulhos de 90 minutos a 8 °C sem sentir frio. Mas requer formação específica, lastro diferente e técnica de flutuabilidade distinta. Saltar o curso do fato seco para poupar 200 € é uma das decisões mais tolas que se pode tomar.
Quando regressas à superfície em hipotermia, o corpo não recupera só por subir ao barco. O sangue periférico regressa ao núcleo e pode causar quedas de tensão, tonturas, até desmaios. Bebida quente sim, mas álcool nunca: dilata os vasos e agrava a perda de calor. Tirar o fato depressa, roupa seca, manta térmica — e se os tremores durarem mais de 30 minutos à superfície, urgência.
A minha regra pessoal após alguns sustos: se estiver com tremores contínuos na água durante mais de 5 minutos seguidos, começo a subir. Não espero que parem. Não espero que o parceiro mo diga. Subo. O frio mata mais mergulhadores experientes do que principiantes — porque os principiantes abreviam ao primeiro calafrio, e os veteranos acham que aguentam.

